terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Poesias...

Porque ler poesia?
Os poetas (os grandes) tem a incrível capacidade de colocar em palavras o abstrato, o inonimável, de falar sobre coisas para as quais não temos palavras em nossa sintaxe, expressar nossos a
nseios, dúvidas, frustrações e medos.
Os poetas (os grandes) estão em contato direto com o outro mundo, com o espiritual, o nagual, mesmo que de forma não consciente. Sua válvula redutora é, talvez, menos redutora que a nossa, sua percepção é menos restrita.
Ler poesia é um exercício de intento, ler os Grandes é uma forma de quebrar nossa rigidez perceptiva.
E, se pensar em escrever, como uma vez o Grande Quintana respondeu quando lhe perguntaram o que era necessário par
a ser um poeta, leia e quando pensar novamente em escrever, volte e leia, leia mais...
Um exemplo, Álvaro de Campos, pseudônimo do Grande Fernando Pessoa:
APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929

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